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Marcos Resende Televisão

Marcos Resende Televisão

Marcos Resende Entrevista

Elmo Francfort 08.jpgÍndice   Televisão

 

O escritor e televisista Elmo Francfort  inaugura uma nova área no site ELMOBLOG, voltada a entrevistas com profissionais de televisão e personagens relacionados ao meio de comunicação. 
Nesta primeira entrevista conheça mais sobre o autor e diretor de conteúdo de programas de Televisão,  Marcos Resende
Hoje, roteirista da Rede Globo, já passou pelas mais diversas emissoras nesses 50 anos de carreira.

Conheça mais sobre este grande profissional.  

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ELMO FRANCFORT
Marcos, qual foi seu primeiro trabalho em televisão? Já foi como autor? Quando foi?


MARCOS RESENDE
Não, Elmo. Curioso que meu primeiro trabalho de televisão foi como Ator, lá pelos anos 70. Eu cursava Publicidade e Marketing na FAAP, em vias de passar para o 3º ano, quando estourou uma rebelião entre os alunos. Queríamos modificar radicalmente o currículo escolar. Imagine você que as matérias nada tinham a ver com o que a faculdade propunha, a maioria dos professores vinha de formação jurídica, e pelo andar da carruagem pegaríamos o canudo de papel sem entender patavina de Propaganda. Fizemos um movimento de boicote, paramos de frequentar as aulas, e eu, sem o que fazer em São Paulo, voltei para minha terra, Varginha, MG, onde de imediato fundei uma companhia de teatro, a Turma do Teatrão. Estava ansioso por fazer isso há muito tempo, praticamente “morava” no Teatro de Arena, em São Paulo, na rua da Consolação. Convivia diariamente com Gianfrancesco Guarnieri, Miriam Muniz, Lima Duarte, Augusto Boal, Fauzi Arap, Dina Sfat, David José, Antônio Fagundes, Aracy Balabanian, Carlos Augusto Strazzer, Maestro Carlos Castilho, a turma toda (que é enorme). Estava fascinado pelo teatro.   

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A Turma do Teatrão estreou em Varginha e rodou o sul de Minas inteiro, com uma releitura de espetáculos que faziam sucesso no Tuca, no Arena ou peças e musicais de nossa autoria, seguindo a linha “Teatro Pobre”, do diretor polonês Grotowski: para variar, não tínhamos os mínimos recursos, como quase todo principiante que se deixa fascinar por esse canto de sereia. Bem, para encurtar a história, a companhia teatral foi feliz, mas, 3 anos depois, eu estava de volta à faculdade, com uma baita nostalgia dos palcos. Para saciar essa fissura, comecei a participar de shows na Faculdade de Comunicação Social Anhembi, produzidos pelo então colega Osmar Mendes Júnior, o excelente jornalista que todos conhecemos.

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Nosso grupo, Jean Garfunkel, Paulo Zamikhowski e eu apresentávamos canções compostas pelos três, e eu dizia poemas e monólogos. Muita gente teve seu começo ali, nas produções do Osmar: Carlinhos Vergueiro, Roberto Riberti, Dega Calazans, Paschoal Lombardi e outros que não seguiriam a carreira. Esses  shows lotavam as salas de aulas nas tardes de  sábado e aí é que começa minha história na televisão, Elmo.
 

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O diretor Eduardo Moreira, da TV Cultura, teve a ideia supimpa de criar o programa Gente Jovem, em que só podia entrar quem estava no começo do começo do começo; e era apresentado pelo experiente Fausto Canova, uma celebridade da Rádio Cultura, e por uma bela morena, Ângela Rodrigues Alves (bisneta do presidente Rodrigues Alves), que na época tinha 18 anos e hoje é dona de uma grande produtora.

O programa estreou em 1973, durou quase 10 anos – e minha função era justamente dizer poemas e monólogos, como fazia nos shows, e trazer jovens poetas, um por semana. 

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Paralelamente, recebi do Diretor da Divisão de Shows, Solano Ribeiro, convite para trabalhar na TV Tupi, por sugestão do cantor Sílvio Brito, no programa Hallellujah (74), apresentado por ele e pelo Fábio Jr. (aí, já como Autor). Em seguida, o diretor José Luís de Diego me levou para produzir e escrever um programa diário,  “Mural”, com a Ana Maria Braga (1976), antes disso, produzia e apresentava "Replay", uma síntese do que acontece de melhor na emissora. E daí pra frente, não parei mais.

ELMO FRANCFORT
O que é essencial para escrever um bom roteiro?

MARCOS RESENDE
Uma boa dose de inspiração, e muita transpiração, além de, é claro, saber escrever.  Costumo dizer que escrever é muito fácil… ou impossível. É um dom? Sim. É, todavia, uma técnica que pode ser adquirida? Também; para isso existem bons e… maus cursos por aí. Só não há “curso de talento”, a pessoa tem ou não tem. Um caminho válido é você prestar atenção no texto de outros autores, para, no começo, tentar, digamos, “imitá-lo”, ou, se for o caso, para fugir daquele modelo como o vampiro foge da cruz (riso). Quase todo mundo começa imitando alguém, antes de adquirir “luz própria”. A única forma de aprender a fazer é… fazendo. O script tem o poder mágico de nos “ensinar’ como ele quer ser escrito. Quem teve o privilégio de passar pela “Universidade do Sumaré” ou da Urca (que é como costumamos nos referir a quem trabalhou na TV Tupi), sabe o que estou dizendo. Ah, e não deixar de ler!!! Ler, ler, ler muito, ler sempre. O autor é movido a livros e ideias, nutrido por eles, por eles inspirado. Mas, atenção, nada de escrever empolado; usar, por usar, termos difíceis, construções metidas à besta. Viva Monteiro Lobato! Vivas para Stanislaw Ponte Preta, Geraldo Vietri, Marcos César, Luís Fernando Veríssimo, Mazzaropi! Um dos segredos do sucesso é falar a língua do povo. O difícil é fazer o fácil.


Você conhece o bom autor pela dedicação quase obsessiva que tem pelo que faz. A busca incessante da perfeição. Sou perfeccionista? Sou, assumo. Mas, posso garantir a você, Elmo, que me divirto muuuito quando escrevo! E para qualquer coisa ficar bem feita, o “divertir fazendo” é meio caminho andado. Não ter preguiça, linha por linha do script. Escrever cada frase como se fosse a única.

Um exemplo a ser estudado e aplaudido é da autora de “Harry Potter”, Joanne Kathleen Rowling. Se você se detiver no que vou enfatizar, perceberá que ela cria cada momento da história com uma empolgação contagiante, acreditando e fazendo acreditar fervorosamente naquilo que está “acontecendo”! Não tem preguiça, o ritmo não cai. Em momento algum, o leitor vê esmorecer o brilho, o fôlego, o prazer que ela sente ao estar escrevendo aquilo. 

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Um outro procedimento que adoto sempre que posso é deixar o script “dormindo” de um dia para o outro… No dia seguinte, já vejo o texto com outra cara; cara que precisa ser aprimorada. Funciona, sempre funcionou. (Faço isso quando posso, eu disse, porque a televisão é implacavelmente imediatista.)

Complementando: para se construir um bom script é essencial você saber tudo MESMO sobre o que está escrevendo. Escrever é fácil, o difícil é saber o que você vai escrever — e não passar informação errada ou pela metade, em hipótese alguma.


ELMO FRANCFORT
Gostaria de que você lembrasse trabalhos inesquecíveis. Qual significou mais na sua vida?

MARCOS RESENDE
Todos significaram muito, porque é disso que vivo: escrever. E, como um operário da palavra que se dedica por inteiro a seu ofício, já escrevi sobre quase tudo: programas de pesca; responsabilidade social; workshops sobre óleo lubrificante; tratores; comercial de ambulância; manual de automóvel; documentários sobre perfilados de alumínio; saneamento básico; companhia de aviação, de eletricidade…


Escrevi até um jogo de futebol, acredite você. Já viu uma partida de futebol com script? Pois, existiu (riso). A TV Tupi, nos anos 70, resolveu fazer no estádio do Pacaembu, o Futebol dos Artistas. E não me perguntem como, mas, o evento seguiu um script, como um programa de televisão. Eu me lembro que Eva Wilma, devidamente vestida com o hábito de freira da novela O Direito de Nascer, deu o pontapé inicial. O “portentoso prélio” foi narrado pelo Walter Abrahão e comentado pelo Moacyr Franco. Houve coisas assim: o altofalante do Pacaembu anuncia que há um telefonema para a atriz Etty Frazer, que jogava de ponta direita. O juiz paralisa a partida. Etty, toda preocupada, sai correndo em direção à cabine de locução. O altofalante prossegue: “o telefonema é de sua empregada que quer saber o que fazer para o jantar”. Risada geral! O jogo inteiro foi uma “palhaçada” divertidíssima, uma brincadeira inesquecível e o telefonema da empregada nunca existiu, é claro. Mas, respondendo ao que você perguntou, muitos programas que escrevi marcaram minha vida: Gente Inocente, Clube dos Artistas, Almoço com as Estrelas, Grande Parada, Programa Mino Carta; Especiais internacionais com Burt Bacharach, Dave Brubeck, Dione Warwick, Amália Rodrigues, Nico Fidenco, Gloria Gaynor, Charles Aznavour, James Brown, João Gilberto, Roberto Yanez, Ornella Vanoni, apenas para citar alguns —  tudo isso na TV Tupi, com direção de Paulo Roberto Bastos, Fernando D’Ávila, Américo Bittar, Sérgio Galvão e Felisberto Duarte (o Feliz). Fui o primeiro diretor e autor brasileiro a fazer um especial com Julio Iglesias (anos 70).


No SBT, escrevi Hebe; Silvio Santos; Você Faz o Show, com Murillo Néri e Lolita Rodrigues; mas, sem a menor dúvida, o Programa Flavio Cavalcanti, sob a batuta segura do diretor Carlos Franco, foi o meu ponto alto. Não posso me esquecer, todavia, do prazer de ver e ouvir Sérgio Chapelin dizendo meus textos no Show Sem Limite, cujo carro-chefe era o quadro O Dia Em Que Você Nasceu, uma reconstituição, a mais completa possível, de tudo o que aconteceu no Brasil e no mundo, na data de nascimento de personalidades convidadas. O diretor, um dos melhores que conheci: Roberto Jorge (anos 80).

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Externa do programa Como Funciona? (SBT), no Viaduto do Chá, São Paulo


Na primorosa TV Manchete, emissora que não deveria ter acabado nunca (até para evitar o que veio depois), era muito bom escrever o Milk Shake, da Angélica, que reverencio como uma multiartista talentosa, inclusive como atriz. Criei personagens que ela fazia admiravelmente, como Dita Jiboia, Lilika Barraqueira, Joana Dark, Regininha Whitaker, Hebinha (imitação de Hebe Camargo); um textinho curto, cujo objetivo era abrir seções musicais dentro do programa para números de rock, samba, música sertaneja, etc..

Na Globo, aonde estou de volta, criei Bambuluá, em parceria com a autora Claudia Souto, sob a direção como sempre brilhante do Roberto Talma (anos 90); mas, o que mais curti criar e escrever foram 100 clipes para o quadro 100 Anos de Música, exibidos no Fantástico, no ano 2000. O grande vencedor, A Música do Século foi o samba-exaltação “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso. O programa foi dirigido pelo Pedro Vasconcellos e teve a supervisão do Talma.

Na Band, uma das minhas mais recentes missões, confiadas pelo ótimo diretor Hélio Vargas, foi a de responder pelo texto final de Uma Escolinha Muito Louca, com Sidney Magal, Ricardo Côrte Real, Orival Pessini e um elenco adorável, a maioria estreante. Foram quase 300 programas, que me trouxeram um imenso prazer, com texto dos conhecidos autores Sérgio Valezin, Papa Camargo, Magalhães Jr., José Sampaio, Orival Pessini, Adib Salomão, Paulo Fernando Mello, Claudio Longo, Rafael De Pieri e, eu, também; produção de Delvair Thomazelli e Rosângela Mello e direção de Valdemyr Fernandes, posteriormente, Jacques Lagoa; todos eles, uns craques (2010, 2011).

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Haveria e há muito mais o que dizer, Elmo — eu gosto de quase tudo o que realizei —, mas, não se trata de uma autobiografia. Quem sabe, um dia, eu consiga “engatar a primeira” e publicar a história inteira. Afinal, é muito bom haver escrito para Ayrton Rodrigues, Blota Júnior, Flavio Cavalcanti, Angélica, Hebe Camargo, Sílvio Santos, Xuxa, Ana Maria Braga, Cid Moreira, Fausto Silva, Walter Forster, Mino Carta, Marcos Durães, Goulart de Andrade, Paulo Autran, Marcelo Rezende, Sérgio Chapelin, Murillo Néri, Ana Paula Padrão, Almir Sater, John Herbert, Lolita Rodrigues, Britto Junior, Ana Hickman, Hélio Souto, Dionísio Azevedo, Bianca Rinaldi, Beth Goulart, Sidney Magal e tantos e tantos outros. Para quem se interessar, aqui está minha Biografia Rápida.
 

ELMO FRANCFORT
Você possui diversas comunidades no Facebook e blogs. Qual a importância da internet e das redes sociais para você?


MARCOS RESENDE
Chegar ao endereço do povo. “Estar aonde o povo está”. Quase tudo o que escrevi e escrevo: contos, poemas, letras de música, frases de efeito, sacações, estão na Internet. São meus livros virtuais. Absolutamente grátis. Não ganho um vintém com isto, em contrapartida não corro o risco de ficar encalhado na prateleira de uma livraria ou de um sebo (riso). Na Internet, sei que sou lido por milhares de pessoas (pelo menos é o que dizem os medidores de acesso; ao todo, reuni um potencial de mais de 200 mil leitores em minhas comunidades) e, graças ao satélite, tenho visibilidade em qualquer canto do mundo ou fora dele, onde houver um computador conectado à web.


ELMO FRANCFORT
O que mais mudou na TV, de quando você começou, para agora?


MARCOS RESENDE
Pergunta difícil e perigosa, hein, Elmo? Mas, vou encarar. Nasci no dia 24 de maio de 50, para ser preciso, 117 dias antes da estreia da Televisão no Brasil, que como sabemos, foi no dia 18 de setembro de 1950. Peço, então, que o leitor me desculpe, porque, por motivo de força maior, sinto-me impossibilitado de falar sobre TV, antes de 54 (riso). Sim, porque aos 4 anos de idade, eu já tinha noção do que era televisão, assim como me vêm lembranças da morte de Getúlio Vargas e do sucesso de Carmen Miranda, Marlene e Emilinha Borba. Vamos à resposta, porém, “sem mais delongas”, como diria César Monteclaro. Abominando qualquer tipo de saudosismo, me lembro de que a Televisão brasileira dos anos 50, 60, 70, 80, de maneira geral, era culta, inteligente, criativa. Grandes valores da dramaturgia, da literatura, da publicidade se apaixonaram por fazer televisão e se dedicaram de corpo e alma à nova arte (que, graças à iniciativa e tenacidade da queridíssima Vida Alves e de todos vocês que a circundam, terá a Memória preservada no Museu da Televisão Brasileira).


Havia o prazer de se produzir QUALIDADE. A criatividade florescia num jorro que parecia infinito. Televisistas geniais como Fernando Faro, Álvaro de Moya, Silveira Sampaio, Walter Forster, Cassiano Gabus Mendes, Dermival Costa Lima, Walter Avancini, Cyro del Nero, Solano Ribeiro, Dias Gomes, Eduardo Moreira, Túlio de Lemos, Geraldo Vietri, Manoel Carlos, Paulo Gracindo, Benjamin Cattan, Tatiana Belinky, Aurélio Campos, Mauricio Sherman, Rubens Furtado, Nilton Travesso, Homero Silva, Ayrton Rodrigues, Roberto de Oliveira, Tuta, Lima Duarte, Heitor de Andrade, Raul Duarte, Bibi Ferreira, Augusto César Vannucci, Janete Clair, Daniel Filho, o extraordinário Boni e uma infinidade de atores e técnicos de altíssima percepção, de altíssima garra, criaram momentos de intensa riqueza para os privilegiados telespectadores de então.


Atores, jornalistas, apresentadores se expressavam com maestria, sem teleprompter, ao vivo e no improviso, quando necessário. Irrepreensíveis ao lidar com a  língua portuguesa, dicção perfeita, entendia-se o que diziam. Os programas musicais possuíam orquestras, corpos de baile. Existiam cantores, músicos, maestros, naquele tempo. A música sinfônica encantava as manhãs de domingo. Ao vivo! O bom Teatro mundial, aqui adaptado para a TV, fazia rir e chorar, com atores e diretores de talento e cultura inequívocos. Ao vivo! Programas infanto-juvenis, como “A Estrela é o Limite” e “Sabatinas Maizena” eram instrutivos, inteligentes. A boa telenovela nasceu nessa época. Celebridades como Jean Paul Sartre, Ray Charles, Johnny Mathis, Liza Minelli passaram por nossos estúdios. Você me pergunta o que mudou… Preciso responder?


ELMO FRANCFORT
Gostaria de que você desse um conselho para quem quer seguir na área de televisão.


MARCOS RESENDE
Se conselho fosse bom… as pessoas seguiriam (riso); o que nem sempre acontece, não é assim? Entra por um ouvido e sai pelo outro. No entanto, aos 48 anos de carreira, e depois de sofrer tantas intempéries e bordoadas, me acho, em alguma medida, capaz de dar meia-dúzia de sugestões, sim — e para quem tiver “olhos de ver e ouvidos de ouvir”, vou fazer o que você pediu.

Dica Nº 1: quer seguir na área de televisão? Serei repetitivo: “alfabetize-se”. Leia muito, muito, muito. Cultive-se. Veja o bom cinema. Vá ao teatro. Se possível, viaje. Não perca o trem da História, informe-se, atualize-se. Acompanhe o que a televisão internacional séria está fazendo.


Não tente, como alguns, fazer televisão de “orelhada”. Seja responsável, saiba o que está pondo no ar e por que está pondo. Tente ser original. A única maneira de desescravizar a televisão brasileira do servilismo aos formatos estrangeiros — e tirá-la deste poço fundo e escuro em que foi atirada pela ganância de alguns concessionários, que desonesta e impunemente usam a concessão pública para ganhar rios de dinheiro — é com conhecimento, cultura. Este raciocínio vale para todo mundo; autores, diretores, atores, figurinistas, cenógrafos, produtores, cabeleireiros, técnicos, administradores — e principalmente para aqueles que “comandam o navio”, em português claro, os senhores donos, proprietários das emissoras, concessionários que são.


ELMO FRANCFORT
Seguindo a sua maneira de pensar, você vê possibilidade de a Televisão Brasileira ter um futuro um pouco mais promissor, viver melhores dias?


MARCOS RESENDE
Acredito, sim. No dia em que os detentores das concessões se dispuserem a se preparar para administrar melhor suas emissoras. Que passeiem menos e trabalhem mais. Que diminuam a quantidade de convenções em praias paradisíacas e passem a tomar um número maior de atitudes que resultem em produtos de boa qualidade, o que vai gerar audiência e emprego. Aqueles que já entenderam isto se deram muito bem, e é fácil saber quem são, basta o telespectador premir o botão “power” do televisor.


Além do despreparo e da “orelhada”, o que mais prejudica a qualidade dos programas, incluindo esporte e jornalismo, é a busca selvagem pela audiência, dispostos que estão aqueles que decidem, a pagar o preço que for para ganhar enganosos pontinhos na pesquisa; pontinhos esses que já estão — e cada vez mais estarão — custando-lhes muito caro: a perda da credibilidade, por exemplo.


Vejo a Televisão de hoje, como um grande “Pássaro Frankenstein”. De um lado, ALTA TECNOLOGIA, do outro, a (MÁ) CRIAÇÃO DE PROGRAMAS. De um lado, a asa de uma águia, do outro, a asinha de um tico-tico. Se hoje, a alta tecnologia permite à Televisão vôos nunca dantes sequer sonhados, todo esse padrão qualitativo é desperdiçado com o nível do conteúdo (exceções à parte). Aí, não há como decolar. De quem é a culpa?


Outro efeito desastroso, engendrado no gabinete de chefes e chefetes despreparados, são as demissões em massa. Erram no momento de decidir que produtos colocarão na grade; erram na escolha do horário de programação (erram, é claro, por absoluta inépcia, incompetência), o que resulta logicamente na baixa audiência, no desinteresse dos patrocinadores e na demissão de funcionários. São estes últimos que pagam o preço, os que são punidos e penalizados, enquanto que os verdadeiros vilões permanecem confortavelmente aboletados e seguros em suas luxuosas salas.


ELMO FRANCFORT
Que fórmula você sugere para atingir o grande público?


MARCOS RESENDE
Atingir o grande público jamais significou ou significará colocar a banalidade, o fútil, o apelativo, o grotesco, o sensacionalismo no ar. Esse tiro, mais cedo ou mais tarde, sairá pela culatra numa implosão de consequências irreversíveis, fazendo com que o público, saturado de tantos trambiques, opte por mídias alternativas, como a Internet e os canais de filmes, o que já vem acontecendo em escala significativa, senão alarmante.


Concluindo: insisto em bater na tecla de que o fato de ser a televisão um veículo de comunicação de massa não significa que deva ter um conteúdo de baixa qualidade, pelo contrário: televisão existe para divertir e instruir, ou instruir e divertir (como queiram). Vila Sésamo era um programa popularíssimo e de qualidade tão apurada, que nunca mais apareceu outro igual nem ao menos parecido. Insisto: quem faz qualidade é recompensado com boa audiência. O grande público, de A a Z, sabe reconhecer e prestigiar o que é bom, e é perigoso e leviano que se pense o contrário.


Na Itália, por exemplo, a ópera sempre foi uma diversão essencialmente popular. Na Grécia, na Inglaterra, na França, na Rússia (e em outras dezenas de países e culturas), o que se chama de Teatro Clássico era feito para o povo, que lotava arenas e teatros. Pois, bem: ainda que destinadas ao grande público, quem teria a coragem de negar a qualidade da obra de Verdi (1813-1901), Rossini (1792-1868), Puccini (1858-1924) ou da dramaturgia de Sófocles (497 a.C.) Molière (1622-1673), Shakespeare (1564-1616), Nikolai Gogol (1809-1852)?


Senhores, que tal começarmos a fazer televisão para o telespectador, antes que ele “mude de canal” definitivamente? Ainda está em tempo. Obrigado, Elmo.


ELMO FRANCFORT
Eu que agradeço!


Conheça mais sobre Marcos Resende também em seu site. Clique aqui.
Até a próxima entrevista do ELMOBLOG.
 

 

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http://www.elmofrancfort.com.br 


Rio de Janeiro, 24.04.2014

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